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89 FM E O REACIONARISMO NO ROCK


Parece coincidência.

Foi só Fernando Haddad ter sido eleito, quatro anos atrás, para a Prefeitura de São Paulo, para a suposta "rádio rock" 89 FM voltar ao ar, abandonando o perfil pop que assumiu desde 2006.

E a 89 FM voltou tão ruim quanto em 2006.

Na programação do "dia do fim do mundo", 21 de dezembro de 2012, uma voz de locutor poperó, tipicamente Jovem Pan, anunciava estranhamente canções de rock.

Algum locutor de dance music encerrando expediente e preparando a transição?

Não. A voz era de ninguém menos que Tatola Godas, o autoproclamado punk, ex-cantor do Não Religião e há anos radialista da conhecida "rádio rock" paulista.

Apesar de toda a fama de "rebelde" e "revolucionária", a 89 FM sempre teve um pano de fundo conservador.

É controlado pela família Camargo, cujo patriarca, José Camargo, foi um político da ARENA e do PDS paulista.

Era ligado ao hoje deputado federal Paulo Maluf, e do mesmo grupo político que teve José Maria Marin, ex-presidente da CBF.

Daí as parcerias da 89 com os dirigentes esportivos para criar programas de besteirol e futebol, modalidade esportiva que nunca se bicou com o rock  no Brasil.

No livro sobre a 89 escrito por Ricardo Alexandre, se via José Camargo e seus filhos, Júnior e Neneto, ao lado do político César Cals, militar que foi ministro da ditadura militar e estabeleceu uma política coronelista no Ceará.

Nada mais anti-roqueiro.

A 89 FM também recebeu generosas verbas públicas dos governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso.

FHC também financiou a parceira ideológica da 89 FM no Rio de Janeiro, a Rádio Cidade.

Juntas, a Rádio Cidade e a 89 FM desenharam o padrão comportamental dos midiotas.

Os ouvintes e até produtores das duas rádios, já por volta de 2000, mostravam seu reacionarismo que hoje vemos no Movimento Brasil Livre, por exemplo.

As rádios eliminaram o caráter progressista das antigas rádios de rock dos anos 80, como a niteroiense Fluminense FM e a paulista 97 FM, do ABC paulista.

Há quem diga que a Jovem Pan Sat adquiriu a Fluminense FM, através de franquia, por indicação da 89 FM.

Fora a articulação conjunta de um grupo de DJs cariocas (como Rhoodes, Demmy Morales, Orelhinha e Marcelo Arar) que se dividiu entre a Jovem Pan Rio e a "rockificação" da Rádio Cidade.

As antigas rádios de rock foram substituídas por um modelo de "rádio pop que só toca rock", ou seja, "rádios rock" que não tinham personalidade rock e eram pilotadas por locutores "engraçadinhos" e, de rock, só tocavam os "grandes sucessos".

Desde os anos 90 as duas "rádios rock" desenharam um padrão de comportamento juvenil que hoje é definido como "coxinha".

Um jovem ao mesmo tempo desbocado, agressivo e sarcástico, mas extremamente conservador.

Não por acaso, Tatola Godas é do mesmo meio social da banda Ultraje a Rigor, do já declarado conservador Roger Rocha Moreira.

Era um meio social em que o legado do punk paulistano era lapidado e redirecionado para um contexto mais conservador.

Atualmente, a 89 FM apoia o governador paulista Geraldo Alckmin.

E segue como reduto dos roqueiros de direita que festejam o afastamento do PT da vida política nacional e paulista.

Se existe a Jovem Pan Sat, rede de emissoras AM e FM da corporação reacionária, a 89 FM se comporta como se fosse seu "satélite".

O Encrenca da Rede TV (na 89, "Quem Não Faz Toma") é claramente influenciado pelo Pânico da Pan (que também estreou na televisão pela mesma Rede TV), embora declare fazer "algo diferente".

A "cultura rock" da 89 FM não é muito diferente da que é servida por nomes como Roger Moreira e Lobão.

Ideologicamente, Tatola só é mais reservado. Mas no fundo veste a camisa dos "revoltados" de hoje.

No conjunto da obra, 89 e Jovem Pan são tudo a mesma coisa.

Da mesma forma, Pânico da Pan/Pânico na TV e Quem Não Faz Toma/Encrenca.

Humor besteirol como expressão de uma mídia ultraconservadora que há anos contribuiu para a formação de uma juventude reacionária a partir de São Paulo.

A gente até imagina se a canção "Rebelde Sem Causa" do Ultraje a Rigor seria uma prévia da "filosofia coxinha" dos tempos de hoje.

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