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AS ESQUERDAS, DIVIDIDAS, PARECEM ACOSTUMADAS COM A PERDA DE PROTAGONISMO

CIRO GOMES (NO ALTO) É APOSTA DE PARTE DAS ESQUERDAS, MAS SEU POSSÍVEL VICE, BENJAMIN STEINBRUCH, APARECE AO LADO DE NOMES COMO JOÃO DÓRIA JR..

As esquerdas, como são conhecidas as forças progressistas do país, estão divididas.

Elas perderam o protagonismo, depois de terem mordido a isca da bregalização cultural trazida pela intelectualidade "bacana" e que fez o povo pobre perder boa parte de seu protagonismo.

Afinal, a lorota do "popular demais" como falso movimento libertário era, na verdade, uma deturpação da cultura popular patrocinada pela mídia oligárquica.

Defender a bregalização e a supremacia do "mau gosto", no âmbito cultural, soou como se tratasse o povo pobre como um bando de crianças que foi mandado pelos pais para brincar e não ficar ouvindo o bate-papo dos mais velhos.

Resultado: o povo pobre já havia perdido o protagonismo mesmo com Lula no poder, e os intelectuais "bacanas", que se fingiam "amigos das esquerdas" e até queriam estar vinculados oficialmente a elas, fez isolar os debates das forças progressistas apenas entre suas lideranças.

Ocupado com o "funk", o tecnobrega, o "sertanejo", o brega antigo das "viradas culturais" etc, o povo pobre esqueceu de seus próprios problemas e o vazio do debate popular foi preenchido por "coxinhas" e bolsonaristas.

Depois ninguém gosta quando se compara o "funk" ao Cabo Anselmo e se afirma que os intelectuais "bacanas" servem, extra-oficialmente, aos interesses e determinações dos barões da grande mídia.

E aí tivemos uma série de infortúnios que afastaram as forças progressistas do poder.

Um Legislativo conservador foi eleito em 2014, Dilma Rousseff perdeu o mandato, Lula foi preso.

Enquanto isso, a centro-direita está indecisa e não conseguiu consenso para lançar um candidato liberal que agradasse até esquerdistas menos exigentes, enquanto, por outro lado, há a ameaça fascista de Jair Bolsonaro.

Lula esteve associado, pelo menos, a dois episódios esta semana.

Um é um manifesto de seis ex-governantes europeus pedindo a libertação do ex-presidente e a liberação do petista para concorrer às eleições presidenciais de 2018.

Os líderes François Hollande, ex-presidente da França, José Luis Rodriguez Zapatero, ex-presidente da Espanha, Elio di Rupo, ex-primeiro-ministro da Bélgica, e três ex-primeiros-ministros da Itália, Massimo D’Alema, Enrico Letta e Romano Prodi assinaram o manifesto.

Segundo o manifesto, "a luta legítima e necessária contra a corrupção não pode justificar uma operação que questiona os princípios da democracia e o direito dos povos a escolher seus governantes".

O documento ainda diz: "A prisão precipitada do presidente Lula, incansável artífice da diminuição das desigualdades no Brasil e defensor dos pobres, só pode suscitar nossa comoção".

Eles expressam também preocupação com o caso do impeachment de Dilma Rousseff, que definiram como séria.

O tucano Aloysio Nunes Ferreira, ministro das Relações Exteriores, arrogantemente chamou o manifesto dos seis líderes europeus de "arrogante". Atribui o pedido de libertação de Lula e autorização para ele concorrer às eleições de "violação do Estado de direito".

Outro episódio é o leilão do triplex do Guarujá, que aqueles que estão informados das coisas (ou seja, o que a mídia venal esconde) já percebeu ser uma grande armação.

O leilão foi dado depois que se constatou que a propriedade era da OAS e não de Lula, num arranjo tendencioso do juiz Sérgio Moro, que, recentemente, reencontrou num evento em Nova York o ex-prefeito de São Paulo, João Dória Jr., com a presença de suas respectivas esposas.

O imóvel foi adquirido num lance único de R$ 2,2 milhões. O beneficiário foi o empresário Fernando da Costa Gontijo.

Gontijo é de uma família ligada à empreiteira JC Gontijo. O próprio Fernando foi dono da Via Engenharia, outra empreiteira.

Ambas foram denunciadas sob acusação de envolvimento com o "Mensalão do DEM", possível esquema de propinas movido pelo ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda.

Gontijo foi condenado, juntamente com o ex-prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena e outros envolvidos, por improbidade administrativa, como práticas irregulares de licitação, superfaturamento em obras e fraudes em documentos.

Gontijo também é sócio, em uma de suas doze empresas, de José Augusto Rangel de Alckmin, primo do presidenciável tucano Geraldo Alckmin.

Apesar disso, o agora dono (falta apenas formalizar a aquisição, ainda esta semana) do triplex do Edifício Solaris, no Guarujá, afirma "não ter ligação com atividades ou personalidades políticas".

Vá entender.

Dito isso, vemos que as esquerdas estão acostumadas com a perda do protagonismo, embora uma parcela delas ainda acredite numa reviravolta em favor de Lula.

É certo que, se as leis fossem respeitadas, Lula não estaria sequer preso, mas seguindo com sua excursão pelo país, agora oficialmente como candidato.

Mas como estamos num regime de exceção, isso não vai acontecer. Até porque a narrativa oficial diz que a prisão de Lula foi "merecida" e "de acordo com as leis".

Há uma grande divisão das esquerdas, não bastasse a impotência das forças progressistas em exercer algo próximo do protagonismo perdido alguns anos atrás.

Mesmo o apoio a Ciro Gomes é uma perda de protagonismo político, nem tanto, a princípio, pelo fato do ex-governador do Ceará ter sido do PSDB.

A perda se dá pelo fato de Ciro não ser um sujeito identificado com os movimentos de esquerda, apenas tendenciosamente associado ao esquerdismo por questões de circunstâncias ou conveniências.

É mais ou menos o que se viu, no âmbito midiático ou cultural, com Pedro Alexandre Sanches, Mário Kertèsz, Zezé di Camargo & Luciano e o empresário-DJ da Furacão 2000, Rômulo Costa.

São pessoas que se situavam em contextos confortáveis do conservadorismo ideológico mas que, em nome de alguma vantagem extra, pegaram carona no esquerdismo, com o mesmo apetite tendencioso que se vê em Ciro Gomes.

Ciro Gomes é até mais elegante que Mário Kertèsz no seu jogo de "médico e monstro" que faz o astro-rei da Rádio Metrópole alternar pretenso progressismo e surtos reacionários.

Kertèsz, machista, conservador e com um pano de fundo ainda mais pesado que Ciro - o baiano foi lançado pela ARENA, o paulista-cearense ingressou no partido sob o nome PDS - , é bem grotesco nas apropriações dos movimentos sociais e dos ativismos de esquerda.

Soa "correto" quando entrevista personalidades como Lula (o dublê de radiojornalista deve ter aprendido com consultorias sobre jornalismo que não é sua especialidade natural), embora Kertèsz não saiba, na prática, a diferença de uma redação jornalística e uma mesa de botequim.

Mas quando Kertèsz, por outro lado amigo de aristocratas baianos, vários deles membros de oligarquias do interior, toma surtos reacionários, soa como um cruzamento das atuais condutas da Isto É com a Jovem Pan, marcadas de ironia e overdose de opinionismo.

Ciro, ao menos, usa uma forma diplomática de conduzir suas contradições. Se autoproclama esquerdista "de centro" em eventos do gênero, mas faz o tipo neoliberal quando vai a eventos neoliberais.

Ciro é capaz de, no caso de um recente depoimento sobre a prisão de Lula, morder e assoprar com o discurso articulado dos tecnocratas.

Ele disse que conceder indulto a Lula é uma "loucura" porque "é inocente" e indultos são dados a condenados em todas as instâncias (Lula foi precipitadamente condenado na segunda), o que sugeriria que Ciro questionasse a prisão do ex-presidente.

No entanto, Ciro sinaliza também que "não há ilegalidade" na condenação de Lula, o que traz um sério clima de desconfiança. Ciro menciona que a Lei da Ficha Limpa "inviabilizará" a candidatura do petista.

Mas se Ciro é mais elegante que Kertèsz no seu teatrinho de pretenso esquerdismo, é menos elegante que Juscelino Kubitschek no que se refere à postura moderada de um presidenciável.

Kubitschek, quando se candidatou à Presidência da República, em 1955, era de um partido considerado conservador, o PSD, ligado ao grande empresariado aliado do mercado financeiro e do capital estrangeiro.

Mas ele se aliou a João Goulart, seu vice e ligado ao PTB. Jango, como era conhecido, foi considerado herdeiro político de Getúlio Vargas, morto pouco antes.

Juscelino pode até ter tido a desconfiança de forças progressistas que, então, atuavam à margem do status quo político.

O protagonismo das classes populares era apenas um esboço, mas havia disposição de fortalecer tudo isso quando Juscelino governava o país.

Havia até mesmo uma busca de protagonismo das forças progressistas sob o apoio do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) e do CPC da UNE (Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes).

Algo que já ficou comprometido quando, na Era Lula, se permitia o protagonismo das classes populares e dos movimentos sociais no âmbito político, econômico e social, mas não no cultural.

O "protagonismo popular" a que se atribuía, por exemplo, o "funk", é uma grande mentira, porque o chamado "popular demais", que inclui este e outros fenômenos, sempre foi um subproduto da mídia venal que glamourizava a pobreza e tratava o povo pobre de maneira idiotizada.

E aí o protagonismo popular que havia perdido com a bregalização acabou se tornando um golpe contra quem achava que o "popular demais" iria instalar o socialismo no Brasil.

O povo foi deixado de fora do debate político, supervalorizando inócuas questões comportamentais.

O debate político, que deveria ser público, ficou privativo das lideranças progressistas.

Com isso, a direita se articulou facilmente e, de repente, virou o jogo e retomou o poder.

E agora as esquerdas se desentendem, divididas entre interesses muito divergentes.

E isso quando há uma ameaça de perda de nossas riquezas, pois se anuncia que só as reservas de pré-sal serão inteiramente vendidas aos estrangeiros durante a Copa do Mundo da Rússia 2018.

Enquanto as pessoas usam bandeirinhas do Brasil e camisetas verde-amarelas para torcer pela Seleção Brasileira, esta já um patrimônio estrangeiro pelo patrocínio, mesmo indireto, das multinacionais (como Coca-Cola e McDonalds), o ouro negro escapa de nossas mãos.

As esquerdas promovem debates interessantes, transmitem conhecimentos profundos na mídia alternativa.

Mas, infelizmente, numa época em que a burrice se torna "socialmente aceitável", não com esse nome mas com sua praxe, transmitir conhecimento tornou-se algo insuportável para uma parcela da sociedade.

Infelizmente, reina a regra, principalmente nas redes sociais: a estúpida tese de que "não é preciso raciocinar se já é inteligente".

Para piorar, é uma burrice arrogante, metida a "dona da verdade" e inclinada a ofender e agredir os outros, e que pode, lamentavelmente, fazer as esquerdas "comerem poeira".

Nunca as forças progressistas andaram muito longe do protagonismo, apesar das poucas tentativas de chamar a atenção (Pedro Cardoso, Paraíso do Tuiuti, Márcia Tíburi etc).

Cabe às esquerdas pararem para pensar por que se perdeu o protagonismo político, que escapou pelas mãos com a ajuda "amiga" da intelectualidade "bacana"...

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