Pular para o conteúdo principal

POVO POBRE: MAIS CONSUMO E MENOS CIDADANIA?


Há um grave problema envolvendo as abordagens aparentemente progressistas sobre a cultura das classes populares.

É a estranha qualidade de vida que alguns intelectuais, por boa-fé, e outros, por má-fé, afirmam querer para as classes populares.

Os pobres fazendo o papel de ridículos obedecendo a uma abordagem caricatural trazida pela grande mídia.

Pessoas pobres felizes porque moram em barracos vulneráveis construídos precariamente nos morros de acessos difíceis e arriscados.

Pessoas pobres felizes porque trabalham no subemprego do comércio informal, vendendo produtos obsoletos, piratas ou contrabandeados.

Moças pobres felizes porque usam o corpo para mercadoria, vendendo-o para o sexo voraz de machos supostamente carentes.

Idosos pobres felizes porque passam o resto de seus dias se limitando a se embriagarem e falarem besteira nos botequins.

Mendigos também embriagados se comportando como débeis-mentais nas suas andanças errantes pelas ruas.

Quer dizer que isso é felicidade?

Perder o preconceito é aceitar essa imagem degradante do povo pobre?

Ela não é fruto de preconceitos muito piores?

E a aceitação, não é complacência com preconceitos e não o combate aos mesmos?

Vemos uma intelectualidade cultural que se diz "progressista" cometendo certas omissões sociais muito perigosas.

Imaginam que o povo pobre não tem sentido fora do circuito da mídia e do mercado.

Culturalmente, o povo pobre deixa de assumir a herança horizontal dos vínculos comunitários para assumir a herança vertical do "popular" hipermidiatizado.

Isso é a "verdadeira cultura popular"?

Com multidões indo que nem gado para a casa noturna mais próxima do seu subúrbio, roça ou sertão, para consumir o "ídolo do momento"?

Essa visão é economicista mas não resolve os problemas sociológicos existentes.

E nem explica os conflitos entre a grande mídia e o povo pobre, que não se manifestam necessariamente nos telejornais.

Ver que só uma enxurrada de dinheiro irá trazer cidadania para as classes populares é simplório.

Se dinheiro não traz felicidade, iria trazer melhorias de vida para a população?

Sem melhorias na Educação, na Saúde, no saneamento?

Ou será que a intelectualidade pensa que as prostitutas são felizes em transar com fregueses grosseiros, agressivos, violentos?

Ou pensa que os pobres são felizes em vender produtos piratas, os idosos e infelizes se "consolarem" pelo sabor amargo da bebida alcoólica, cujo consumo excessivo lhes faz vomitar?

Ou pensa que os pobres são orgulhosos em viver em casas precárias que, diante de um temporal, sempre sofrem algum tipo de destruição?

Será que o acréscimo de algumas somas financeiras irá evitar tudo isso, apenas trazendo mais consumo e entretenimento para a população pobre?

E o ídolo musical brega, reduzido a um pastiche de MPB sem a visceralidade dos emepebistas originais, ele estará sendo "mais artista" recebendo a grana que ele só investirá na compra de direitos autorais para uns covers manjados?

Não. Dinheiro, por si só traz apenas mais consumo.

O povo pobre não quer só dinheiro, mas condições para poder se emancipar socialmente.

O povo pobre sabe o que quer: não um carro importado nem uma festa no apê, nem tênis caros ou homens e mulheres sarados para as orgias.

O povo pobre quer melhor Educação, mais saneamento, casas populares, reforma agrária para ter um sítio para plantar o que vai comer ou vender.

O povo pobre quer qualidade de vida, cidadania, dignidade.

Mas tudo o que a intelectualidade dominante lhes oferece é consumismo e espetáculo, como velhos colonos portugueses oferecendo espelhos para indígenas.

Não há como ser progressista assim. Ainda mais dizendo que é "sem preconceitos" sendo cruelmente preconceituoso com o povo pobre.

Combater o preconceito não é aceitar tudo como está, mas ver a coisa com isenção e ajudar a resolver os problemas existentes nas classes populares.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

LITERATURA DESCARTÁVEL

Nas minhas andanças cotidianas, vejo que as pessoas estão se livrando de obras que haviam sido best sellers  neste mercado analgésico que é o da comercialização de livros. Dias atrás, em Niterói, numa dessas caixas de doação de livros nos pontos de ônibus, vi muitos livros da série 50 Tons de Cinza , espécie de erotismo milenial cheio de suspense. No último dia 10, foi a vez de uma sacola deixado pela vizinhança para o recolhimento de descartáveis. Como era domingo, a sacola eu tive que pegar para botar embaixo no prédio, porque é proibido deixar material reciclável na escadaria nesse dia da semana. Por curiosidade, eu vi o conteúdo. Livros juvenis banais, desses que o calor do momento faz badalação intensa, mas o tempo condena ao esquecimento mais fúnebre, e o Floresta Encantada , "clássico" dos "livros para colorir". Tudo literatura analgésica, em que palavras como Conhecimento e Saber são praticamente inexistentes. São muitos vampiros estudantis, muitos cavaleiro...

O QUE FIZERAM COM O LANCHE DA RAPAZIADA?

Nutricionistas alertam, em vários perfis nas redes sociais, que os alimentos industrializados, que fazem parte do cardápio do lanche de muitas pessoas, principalmente as mais jovens, estão sendo adulterados de tal forma que seus sabores anunciados se tornam uma grande mentira. Cafés, biscoitos, sorvetes, salgadinhos e chocolates são alvo de fraudes industriais que fazem tais alimentos se tornarem menos saborosos e, o que é pior, nocivos à saúde humana, ao serem desprovidos dos ingredientes que, em tese, seriam parte integrante desses produtos. São marcas de café que, em vez de oferecerem realmente café, servem uma mistura que inclui cevada, pó de madeira e até insetos transformados em pó, ingredientes queimados para dar a impressão de, estando torrados, parecerem "café puro". Uma marca como Melitta chega a não ter sabor de café, mas de cevada de péssima qualidade misturada com diversas impurezas. O que assusta é que esses supostos cafés, terríveis cafakes  de grife cujo lobby...

A PEGADINHA DE FALSOS ESQUERDISTAS

FIQUEM ESPERTOS - APESAR DE ESTAR JUNTO A LULA (CENTRO), LINDBERGH FARIAS (DE CAMISA POLO) E MARCELO FREIXO (D), O PREFEITO CARIOCA EDUARDO PAES (DE CAMISA AZUL MARINHO E CALÇA CINZA) É UM POLÍTICO DE DIREITA, QUEIRAM OU NÃO QUEIRAM LULISTAS E BOLSONARISTAS. Nesta foto acima, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, aparece na inauguração de um túnel que integra um novo complexo viário no bairro de Campo Grande, na Zona Oeste carioca. Ele aparece ao lado do presidente Lula, o que faz muita gente crer, principalmente os bolsonaristas, que o prefeito carioca é um figurão da esquerda política local, certo? Errado. Erradíssimo. Eduardo Paes é um político de direita, mas que usa o esquerdismo como sua marquise ideológica. De valentões de Internet a políticos arrivistas, passando pelos intelectuais pró-brega, por tecnocratas ambiciosos e por latifundiários nordestinos, há uma parcela da direita brasileira que, mesmo incluindo antigos apoiadores da ditadura militar, passou a apoiar "i...

COMO A FARIA LIMA TRAVOU A RENOVAÇÃO DA CULTURA ROCK NO BRASIL

O portal de rock Whiplash enumerou dez bandas que poderiam representar a renovação do Rock Brasil , hoje em momento de crise a ponto de bandas como Paralamas do Sucesso, Titãs e Barão Vermelho, que durante anos nos brindou com canções novas, fazerem revival de suas carreiras. Bandas boas de rock brasileiro existem. A cultura rock respira fora do esquemão ou mesmo das redes sociais. Mas o grande público foi entregue à supremacia da música brega-popularesca, que em vez de representar, como sonhava o “filho da Folha” Pedro Alexandre Sanches, a “reforma agrária na MPB”, virou um coronelismo musical dos mais perversos. Se um cantor do Clube da Esquina quiser tocar em Goiás, por exemplo, tem que cantar com o ídolo breganejo de plantão. No entanto, desde os anos 1990 o radialismo rock, que deveria ser uma bússola para a formação cultural de quem curte e faz rock, decaíram de vez. A programação se reduziu a uma fórmula que, na época, poderia ser conhecida como “Jovem Pan com guitarras”, mas ho...

GOIÂNIA É REFÉM DE UM MAL-ENTENDIDO HISTÓRICO

  INAUGURAÇÃO DOS PRIMEIROS PRÉDIOS PÚBLICOS EM GOIÂNIA, 1937. Hoje deveria ser feriado em Goiânia. Mas não é. Poucos percebem que em um dia 23 de março, um marco histórico para a cidade goiana se deu, que é o decreto que a transformou em capital de Goiás. Foi no ano de 1937. Daí que vemos o grande e persistente mal-entendido histórico de muitos cidadãos médios de Goiânia (eu não falo dos conhecedores da História local), o de achar que a cidade nasceu capital de Goiás no dia 24 de outubro de 1933. Não, não foi.  Durante quatro anos, mesmo após a inauguração de Goiânia, a capital de Goiás ainda era a cidade de Goiás, apelidada de Goiás Velho até hoje. E para quem renega o 23 de março como data histórica para Goiânia, vejamos o parágrafo que reproduzo de um texto do site do governo de Goiás: " A capital de Goiás foi transferida oficialmente para Goiânia por meio do Decreto nº 1816, de 23 de março de 1937, que determinou o deslocamento de todas as repartições públicas da Cidade d...

MÍDIA VENAL, CONFUSÃO DO POWERPOINT DA GLOBO E DISPUTA DE NARRATIVAS

O Brasil comandado pela Faria Lima vê o circo da polarização pegar fogo. De um lado, o lulismo, de outro duas forças que não se confundem, o bolsonarismo e setores reacionários da direita moderada, quietos há três anos e hoje reativos dez anos após o golpe de 2016. No entanto, a disputa de narrativas, mesmo dentro do contexto do poder da mídia venal, já não é a mesma coisa. Há o caso do PowerPoint do casos do Banco Master, transmitido pelos noticiário da Globo News de 20 de março de 2026, que mostrava integrantes do governo Lula citados sem qualquer confirmação nem o devido contexto das supostas denúncias, relacionadas com supostas conexões dos negócios espúrios do banqueiro Daniel Vorcaro, hoje preso. O episódio teve repercussão bastante negativa. Ex-jornalistas experientes da Rede Globo, como Neide Duarte e Ary Peixoto repudiaram o uso do PowerPoint. Neide escreveu que “qualquer tio do churrasco faria uma matéria dessas”.  Com esse efeito, a jornalista Andreia Sadi, no programa E...

TRANSFÓBICO, RATINHO É SUBPRODUTO DO "OPINIONISMO DE FM"

Na semana passada, o apresentador Carlos Massa, o Ratinho, cometeu transfobia ao comentar no seu Programa do Ratinho, do SBT, no último dia 11 de março, a nomeação da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) para a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados. Disse o apresentador: "Não achei muito justo, não. Com tanta mulher, por que vai dar para uma mulher trans? A Erika Hilton. Ela não é mulher, ela é trans". Ratinho até tentou dizer que "não é contra mulher trans", mas fez um comentário bastante grotesco e cheio de clichês machistas: "Se tem outras mulheres lá, mulher mesmo... Mulher para ser mulher tem que ser mulher, gente! Eu respeito todo mundo que tem comportamento diferente. Tá tudo certo! Agora, mulher tem que ter útero, tem que menstruar, tem que ficar chata três quatro dias". Erika Hilton, que é uma das parlamentares mais atuantes em prol do interesse das classes populares, decidiu processar o apresentador, e anunciou sua ...

TRABALHO OPRESSIVO DE OUTRA RÁDIO MOSTRA O QUE QUEREM OS DONOS DA 89 FM

Um relato de uma locutora mostra os bastidores da realidade opressiva e da visão cruel de trabalho que o Grupo Camargo de Comunicação, dono da 89 FM, defende contra seus contratados. O caso envolve outra rádio conhecida do grupo, a Alpha FM, dedicada ao pop adulto. A radialista Mayumi Sam passou por um momento difícil na rádio. Ela chegou a trabalhar de forma ininterrupta, em sete dias por semana (escala 7X0),  numa jornada de 18 horas, na Alpha FM, e, sentido sinais de esgotamento, pediu um período de 30 dias de férias. Ela também tinha outra profissão, a de roteirista de um humorístico da Record. Quando encerraram as férias, Mayumi foi informada que seu pai estava seriamente doente. Ela então pediu demissão para cuidar do familiar, e com o tempo o pai melhorou de saúde. Mesmo assim, o episódio mostra como é o drama trabalhar numa poderosa corporação da grande mídia que, como muitos da mídia hegemônica, impõem uma carga horária análoga a um trabalho escravo. Muita gente passa pano...

O PAPO FURADO QUE BLINDA A MÚSICA BREGA-POPULARESCA

A música brega-popularesca é a música comercial por excelência do Brasil. Mas seus defensores, uns com arrogância, outros com a falsa imparcialidade dos “isentões”, despejam sempre o bordão “você não precisa gostar, mas tem que respeitar”. “Respeito”, no caso, é uma desculpa para blindar o complexo de superioridade que os fenômenos musicais popularescos exercem por conta do sucesso estrondoso. A narrativa tenta fazer crer que esses fenômenos são “naturalmente populares”. Fala-se que esses sucessos musicais refletem os “sentimentos do povo”, falam da “vida cotidiana das classes populares” e por aí vai. Mas tudo isso é conversa para gado bovino dormir. A música brega-popularesca não é popular, ela é “popularizada” por um poderoso lobby que em nada lembra a dita “autossuficiência das periferias”. Se os fenômenos popularescos expressam culturalmente alguma coisa, são os interesses de riquíssimos e muito poderosos empresários do entretenimento, que são parceiros de empresas multinacionais e...

A HIPOCRISIA DA BURGUESIA ILUSTRADA QUANTO AOS EMPREGOS PRECÁRIOS

OS LULISTAS NÃO PERCEBEM QUE O QUE CRESCEU EM EMPREGO FOI O TRABALHO PRECÁRIO, COMO O DOS TRABALHADORES DE APLICATIVOS, COM REMUNERAÇÃO PEQUENA E INCERTA? O negacionismo factual não gostou das críticas que se fez ao governo Lula sobre a priorização do trabalho precário nas políticas de emprego, enquanto o presidente fazia turnê pelo planeta deixando até o combate à fome para depois. Temendo ficar sem o protagonismo mundial que permitiria à burguesia ilustrada brasileira ter o mundo a seus pés, o negacionista factual, o porta-voz da elite do bom atraso, lutou para boicotar textos que desmascaram os “recordes históricos do Efeito Lula”, como no caso dos empregos que pagam um ou dois salários mínimos. Apesar de sua postura “democrática e de esquerda” e de sua “defesa da liberdade humana com responsabilidade” - embora se vá entender que essa defesa “responsável” inclui atos como fumar cigarros e jogar comida no lixo - , de vez em quando explode nos corações do negacionista factual o velho ...