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A TAL "MÚSICA POPULAR DEMAIS" E A GANÂNCIA DOS CACHÊS


O comercialismo anda extremo nos bastidores do brega-popularesco.

Cachês exorbitantes, negociatas, interesses empresariais em jogo.

Recentemente, o cantor Wesley Safadão havia cobrado, para cantar num festival junino em Caruaru, cerca de três vezes o cachê cobrado em Campina Grande: R$ 575 naquele e R$ 195 neste.

Diante de tanta polêmica, Safadão resolveu doar o excedente para instituições filantrópicas.

O Aviões do Forró, cobrando em Campina Grande R$ 195 e em Caruaru, R$ 250. alegou diferença de custos.

Mas isso não resolve o problema. E mostra o lado podre dos eventos popularescos.

Recentemente, o jornalista Ricardo Feltrin denunciou a chamada "máfia dos shows", esquema que consiste em esquemas de propinas para acertar apresentações de ídolos populares em várias partes do país.

Sobretudo nas cidades do interior.

Isso revela o comercialismo que está por trás da chamada "música popular demais".

E que pode mostrar que a chamada "cultura regional" tem seus "podres".

Até agora tudo são só investigações, mas só as denúncias mostram o quanto o comercialismo traz seus efeitos danosos.

A influência do empresariado nos "artistas populares" mostra seu aspecto tenebroso.

No "forró eletrônico", gênero que tem em Wesley Safadão e Aviões do Forró seus nomes mais badalados, há até mesmo disputas de composições musicais.

A música brega-popularesca, no seu todo, sempre foi mais um empreendimento do que uma arte.

Sob o ponto de vista econômico, até há vários casos de conduta exemplar e transparente.

Mas, sob o ponto de vista artístico, torna-se um processo tendencioso e manipulador.

Os artistas deixam de ser sinceros, são moldados conforme a demanda e o modismo de ocasião.

E isso não quer dizer que eles possam melhorar com o tempo.

Sobretudo quando recebem mais dinheiro. Ninguém fica mais genial porque tem mais dinheiro no bolso.

A geração de 1990 dos "pagodeiros" e "sertanejos" da Era Collor mostram o fracasso de tentar melhorar a breguice musical.

Todos eles tentam até hoje parecerem arremedos de MPB, fazendo a cartilha da "MPB pasteurizada" pelas grandes gravadoras.

É tudo uma mera questão de banho de loja, tecnologia, todo tipo de aparato.

Artisticamente, isso não faz diferença.

E, o que é pior: os discos desses "artistas" acabam sendo musicalmente postiços. E cosméticos.

Muitos dos discos de "pagode romântico" e "sertanejo" são, na verdade, discos de arranjador.

Os arranjadores fazem todo o trabalho de embelezamento.

Em muitos casos, recompõem tudo o que "pagodeiros" e "sertanejos" compõem, que lembram mais rascunhos musicais.

Orientam até eles a tocarem instrumentos, os arranjadores cuidam até dos coros.

Muitos pensam que os ídolos musicais se tornaram geniais, mas todo o trabalho é dos arranjadores.

Em muitos casos, se há 20 grupos de "pagode romântico", 30 duplas "sertanejas" e, em cada um, uma meia-dúzia de cantores solo, por trás deles há uns seis arranjadores.

Se observar bem, esses "artistas" mais parecem calouros de reality shows musicais de tão adestrados (e amestrados) que são.

Tudo parece correto, os arranjos certinhos, o aparato visual adequado, os instrumentos e equipamentos etc.

Até as assessorias de imprensa dão uma boa apresentação dos "artistas".

Tudo parece certo. Até parece "música de qualidade".

Só que tudo isso é cosmético. Há até mais profissionalismo, mas não há arte.

Não há alma. Não há o espírito artístico. Tudo isso vira uma "linha de montagem".

E aí temos o preço do economicismo dominando a música brasileira.

Não temos mais grandes artistas. Só temos grandes fetiches. Tudo cercado do melhor marketing, da melhor técnica, de todos os melhores aparatos.

O que há são empresas de entretenimento mandando e desmandando.

Pode ser que a "máfia dos shows" não atinja sequer a maioria dessas empresas.

Pode ser que, sob o ponto de vista econômico e administrativo, tudo seja feito de forma honesta e transparente.

Mas, sob o ponto de vista artístico-cultural, tudo é postiço e sem espontaneidade.

Daí que a cultura popular, sobretudo musical, foi privatizada.

E o preço caro disso é que não temos mais músicos das classes populares que deixem uma marca artística forte que valha para a posteridade.

Os grandes ídolos radiofônicos de hoje podem até permanecer algumas décadas em evidência, mas sua contribuição cultural se dissolverá com o tempo, feito castelo de areia abatido pelas ondas do mar.

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