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AS PEÇAS DO TABULEIRO DO BRASIL DE 1964 E DE 2016


Forças que atuaram direta ou indiretamente no andamento do cenário social, político e cultural no Brasil de 1964 e 2016 merecem uma comparação.

Contextos unem e separam alguns agentes que contribuíram para o desfecho do golpe militar em 1964 e do golpe político institucional de 2016.

Vamos colocar os focos em intelectuais e ativistas que atuaram nas crises do governo de João Goulart e Dilma Rousseff.

Na mídia, sabe-se que o Jornal do Brasil, que em 1964 havia participado da Rede da Democracia, campanha midiática anti-Jango promovida pelas Organizações Globo, Diários Associados e Sistema JB, ficou de fora da campanha anti-Dilma.

O Jornal do Brasil, restrito à Internet, virou quase progressista com suas abordagens críticas ao governo de Michel Temer. E não fez barulho contra Dilma, como a mídia dominante.

Neste sentido, o papel da Globo e do que restou dos Diários Associados foi semelhante em 2016 no que se refere à postura de 1964.

Mas vamos falar, por exemplo, da intelectualidade cultural, dos ativistas juvenis e do pretenso esquerdismo, algumas das peças do tabuleiro ideológico do Brasil de 1964 e de 2016.

Em 1964, tivemos o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes.

O CPC da UNE, como era conhecido, era um excelente debate sobre os rumos da cultura popular brasileira.

Mas nele predominavam utopias ideológicas, como um certo fascínio terceiro-mundista de transformar o sertão nordestino num cenário exótico de expressão revolucionária.

Foi a partir daí que a classe média cultural tornou-se "nordestina demais", mesmo sendo gaúcha da gema, em muitos casos em detrimento da afirmação cultural do povo nordestino.

O cineasta e comentarista Arnaldo Jabor, anos antes de seu surto direitista, apontava essa postura autocrítica dos cepecistas.

Era o orgulho do terceiro-mundismo, uma forma de complexo de vira-lata sentido por alguns dos membros do CPC da UNE, tinha um quê de paternalista e masoquista com o paraíso da "pobreza linda" e excessivamente "poética".

Mas os intelectuais "bacanas" que surgiram dos porões do PSDB acadêmico que desqualificou até mesmo as qualidades do CPC da UNE num revisionismo histórico, se saíram ainda piores.

Com uma visão neoliberal, tentavam "etnicizar" e "folclorizar" o jabaculê musical e cultural do brega-popularesco e servir suas teorias de bandeja na mídia esquerdista, sob a desculpa do "combate ao preconceito".

Tinham uma utopia terceiro-mundista ainda pior, porque respaldava uma "cultura popular" deturpada pelos interesses do mercado que comungavam coronelistas regionais e barões da mídia.

A ideia não era mais "nordestinizar" o Sul, mas bregalizar o país.

E os valores defendidos dessa "cultura popular" não correspondiam à luta pela qualidade de vida nem a denúncia das opressões.

Eram valores apologistas ao que havia de pior nas classes pobres: alcoolismo, subemprego, prostituição, analfabetismo, machismo, apatia, grotesco, até mesmo dentes banguelas.

A ideia era ver esses valores como "positivos" e depois ia a intelectualidade "bacana", de classe média, "melhorar" toda a aparência.

Era um etnocentrismo do bem, que revelava que a "autossuficiência das periferias" era um blefe no qual os pobres eram vistos de maneira "positivamente" depreciativa e depois eram modificados ao gosto paternalista da intelectualidade "bacana".

Tivemos o Comando de Caça aos Comunistas em 1964 que, poucos anos depois, tinha como um dos membros o hoje jornalista Bóris Casoy, que no entanto não participava diretamente das truculências do grupo.

O CCC era um grupo cujas atuações alternavam humor cínico, assédio moral, vandalismo, ameaças e violência explícita.

Já observava ecos do CCC nos midiotas que me esculhambaram em casos de cyberbullying de que fui vítima em 2007, por uma parcela de fascistas mirins escondidos na comunidade "Eu Odeio Acordar Cedo" no Orkut.

Mais tarde vários desses jovens passaram a fazer parte de grupos como o Movimento Brasil Livre, Revoltados On Line, Vem Pra Rua, Endireita Brasil, Acorda Brasil, Juntos pelo Brasil etc.

Eram, aparentemente, versões politicamente corretas do CCC, combatendo o esquerdismo, agora simbolizado pelo PT, de maneira "civilizada" e "dentro da normalidade legal".

E, se tínhamos o esquerdismo tendencioso e estranho do sargento José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, com seu vitimismo um tanto exagerado e triunfalista, hoje temos o "funk".

O jogo duplo de MC Leonardo, fazendo proselitismo na mídia esquerdista e depois palestrando à vontade em espaços patrocinados pelas Organizações Globo, lembra o discurso articulado do sargento que aparentemente liderou uma revolta dos marinheiros.

Da mesma forma que o "socorro" dos funqueiros aos esquerdistas em crise, como na caboanselmista atuação da Furacão 2000 no protesto de 17 de abril contra o impeachment de Dilma Rousseff.

O "funk", que nunca representou qualquer ameaça à mídia venal e era apoiado por ela, tem a participação da CIA muito mais explícita do que a que foi denunciada sobre Cabo Anselmo.

O próprio Hermano Vianna entregou, em seu livro O Mundo Funk Carioca, que a monografia que inspirou tal brochura foi financiada pela Fundação Ford, uma ONG que colabora com a CIA e o Departamento de Estado dos EUA.

Sua instituição Overmundo recebeu patrocínio de outra instituição ligada à CIA, a Soros Open Society, do magnata George Soros, especulador financeiro capaz de patrocinar tanto o Coletivo Fora do Eixo quanto o Movimento Brasil Livre.

O "funk" tem Luciano Huck como "embaixador". A gíria "é o caldeirão" é uma homenagem ao programa do apresentador tucano, Caldeirão do Huck.

A base política do "funk" é o PMDB carioca, da ala que em 2014 apoiou Aécio Neves para a Presidência da República.

É o partido da "mãe loura" Verônica Costa, mas estranhamente também partido de Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e alvo dos protestos da Furacão 2000.

Cabo Anselmo era um ídolo das esquerdas até se revelar um dedo-duro que entregou seus próprios amigos e uma ex-namorada para serem mortos pela repressão ditatorial.

O "funk", ainda endeusado por setores das esquerdas, já sinaliza um desembarque junto aos intelectuais "bacanas", os últimos a abandonar o barco do apoio às esquerdas.

Alguns intelectuais "bacanas" já estão trabalhando para Geraldo Alckmin cobrindo festivais culturais. Os funqueiros seguem felizes nos palcos da mídia venal.

Em toda essa ciranda, vemos um ex-cepecista como Arnaldo Jabor migrar para a direita, na qual o ex-presidente da UNE em 1964, José Serra, presente no comício de João Goulart na carioca Central do Brasil, se situa feliz, sepultados os tempos de estudante de centro-esquerda.

O Serra que aparecia ao lado de Miguel Arraes e Leonel Brizola hoje é ministro de Michel Temer e usa o Mercosul para lutar pelo desmonte de governos esquerdistas em países como Venezuela e Bolívia.

A estabilização da ditadura e os rumos dos tempos revelaram os movimentos das peças do jogo ideológico. Anselmo, Serra, Jabor assumindo direitismo.

O que ocorrerá quando o direitismo político se firmar, no ano que vem, no caso de Michel Temer sucumbir às denúncias sobre a campanha da chapa com Dilma em 2014?

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